
Realização pessoal.
Renouvier disse: “Querer de verdade é querer o que não se quer”.
Dita assim esta frase parece ser uma contradição, mas querer de verdade pode realmente ser o oposto de desejar.
Enquanto que “querer de verdade” vem do fundo de nós e como tal se manifesta normalmente de forma mais durável, consequente e pragmática, “desejar” é fruto de uma ilusão pelo que normalmente não passa de uma intenção passageira, uma compensação, um impulso de momento... muitas vezes subtilmente sugerido e aproveitado pela publicidade (ver capítulo sobre o prazer).
“Querer de verdade” (fazer “Escolhas”) significa privarmo-nos de muita coisa pois exige-nos um preço muito alto quer em tempo quer em empenho.
Por exemplo, “querer de verdade” ser um atleta de competição, como todos os atletas de competição poderão confirmar, significa reduzir ou mesmo abdicar de inúmeras coisas na vida... o tempo torna-se escasso por vezes para coisas essenciais como descansar, conviver, namorar... não podemos comer tantas coisas que gostamos... e temos que treinar até quando treinar era a última coisa no mundo que nos apeteceria fazer: “querer de verdade é querer o que não se quer” ou seja, querer canalizar grande parte das nossas energias e tempo para o objectivo que nos propomos atingir de verdade, abdicando ou passando para segundo plano tantas coisas que gostamos e seguindo de perto um plano concreto que idealizamos para lá chegar, incluindo todas as coisas aborrecidas ou mesmo desagradáveis que são porém necessárias, no momento em que é preciso executá-las e nem um pouco mais tarde. Adiar o desagradável pode significar que o nosso objectivo vai encalhar no primeiro escolho que encontrar pelo caminho: começamos por adiar a execução da tarefa 60 minutos numa hora... depois, 24 horas num dia... depois, 365 dias num ano... e finalmente, ad aeternum.
O ditado “não deixar para amanhã o que podemos fazer hoje” é um indício que “queremos o que não queremos”.
Para se querer de verdade é pois necessário antes de mais nada conhecermo-nos tão profundamente a nós próprios que saibamos separar os nossos simples desejos (superficiais) das nossas aspirações (profundas). É realmente muito importante que não se confundam simples desejos (ver capítulo sobre o prazer) com as nossas verdadeiras aspirações.
É importante, sabermos encontrar novos “meios de realização pessoal” ou modificar os existentes há medida que vamos amadurecendo, sob a pena de nos divorciarmos tanto dos nossos “ideais” que estes se deixem de nos proporcionar felicidade e se tornem num aborrecimento de morte para a nossa criatividade e aspirações. O mundo e nós mesmos estamos constantemente a mudar e os nossos objectivos correm o risco de ser atingidos: como poderiam os nossos “meios de realização pessoal” manterem-se inalterados e mesmo assim continuarem a reflectir os nossos ideais?
O que acontece no entanto, se nos “perdemos da vida” saltando de “desejo fútil em desejo fútil ou se simplesmente ainda não encontramos “a nossa praia” (o nosso ideal)? Vamos sempre a tempo de fazer algo? Não vale a pena preocuparmo-nos porque talvez o tempo simplesmente ainda não tenha sido suficiente para percebermos qual o nosso objectivo mas talvez estejamos a prepararmo-nos para ele a todo o vapor ou talvez tenhamos simplesmente acabado de dar o passo mais importante: tomar consciência que nos falta algo...
Não nos afogamos por cair à água... só nos afogamos quando não conseguimos sair debaixo dela a tempo.
É realmente importante e necessário entendermos o que é que queremos de verdade e o que é que é apenas alvo do nosso desejo. O que se quer de verdade tem que contribuir em muito para a nossa felicidade se lhe temos que “sacrificar” uma parte importante da nossa vida a vários níveis: não nos podemos esquecer que o objectivo da nossa vida é sermos felizes e, portanto, tudo o resto são apenas meios, mais ou menos importantes, para o conseguirmos.
Permitam-me um “pequeno” aparte. Confundir “meios” com “fins” (objectivos) é um erro grosseiro de raciocínio mas infelizmente bastante comum em todos nós: estamos tão ocupados em obter os “meios” necessários para atingirmos determinado “fim” que temos tendência a nos “esquecermos” a meio do caminho de qual era esse fim (o objectivo inicial).
Um exemplo vulgar disso é quando, cheios de boas intenções, nos dedicamos à nossa profissão de corpo e alma de tal forma que passamos a quase só ter tempo para ela.
É verdade que dedicamos o nosso tempo mais “nobre” à nossa profissão, uma vez que o normal horário laboral nos toma, quantitativa e qualitativamente, a maioria do tempo em que não estamos a dormir, a comer, a fazer exercício, a tomar banho, a fazer as tarefas de casa, etc... Portanto, dado que pouco tempo nos sobra para além do tempo que empregamos no nosso trabalho, a nossa profissão teria que ser em si mesma uma das maiores fontes de felicidade ao nosso dispor e não apenas uma fonte de dinheiro e de realização pessoal.
Por outras palavras, a nossa profissão deveria ser um dos meios mais importantes para atingirmos o objectivo de sermos felizes, pelo que nunca deveria ser vista como algo que é autónomo em relação à nossa vida: a nossa profissão é uma parte essencial da nossa vida.
Porém, a nossa profissão não é o único e talvez nem sequer o mais importante meio para nos preencher: a nossa profissão não é a toda a nossa vida, embora possa ser uma parte significativa da mesma.
O labor que temos que realizar para conseguirmos o que realmente queremos, quando queremos de verdade, é compensado por um sentimento de realização que nos dá felicidade. Portanto o sacrifício é relativo se for executado na medida certa em que é uma fonte de felicidade: um MEIO para sermos felizes... o “sacrifício” torna-se numa fonte de felicidade em si mesmo
Quando porém ficamos obcecados e esse trabalho passa da medida e nos destroi a felicidade (e a vida) esse é o sinal mais evidente que nos esquecemos do verdadeiro fim (ser felizes) e o substituímos pelo que antes era “apenas” um meio: esse é um erro que se paga muito caro.
O mesmo acontece quando não obtemos um bom resultado quando nos lançamos na concretização do nosso “sonho de vida” e nos deixamos abater por isso... o que deveria ser um “meio” passou a ser um “fim” senão porque nos importaríamos tanto assim pelo resultado? O que importava realmente para se atingir o verdadeiro “fim” (ser feliz pela acção) foi conseguido: o que importava era agir e realizar o nosso potencial, se um resultado excelente viesse tanto melhor senão, paciência... o que interessa é que o objectivo foi atingido.
Por exemplo, eu gostaria muito que pelo menos parte do que o que escrevo pudesse ajudar as minhas filhas e, se possível, também a mais pessoas. No entanto há muitas hipóteses que ninguém venha a ler o que escrevi... posso até morrer antes de ter tempo de acabar. Se isso acontecer, paciência... de todas as formas o meu “sonho de vida” já está a atingir o seu “fim”: fazer-me feliz.
Findo este “pequeno” grande aparte, é para mim muito claro que todo e qualquer ser humano tem normalmente à nascença aptidões inatas para ser um “gigante” em inúmeras áreas da actividade humana.
Porém, de que me serviria dizer, no último dia da minha vida, “se eu quisesse poderia ter revolucionado a arte pois nasci com um dom inato invulgar para a pintura”? Isto quereria apenas dizer que ou a pintura não era suficientemente importante para mim ou então que atirei displiscentemente o meu dom pela janela fora.
De que nos serviria dizer “tinha capacidade para ter sido um grande músico” ou “tinha capacidade para ter sido um excelente cientista?
Na vida porém, mais importante do que as nossas potencialidades inatas é aquilo que com elas formos capazes de fazer, aquilo em que realmente nos conseguimos tornar. As nossas potencialidades inatas não aproveitadas são apenas “promessas não cumpridas”... um desperdício de talento inato...
A capacidade de sabermos escolher (optar) é pois uma das mais importantes capacidades que temos, dado que não é humanamente possível, por muitas capacidades inatas que tenhamos à nascença, sermos simultaneamente grandes maridos, atletas, pais, filhos, músicos, fotógrafos, bailarinos, jornalistas, cientistas, sociólogos, psicólogos, pintores, cidadãos, mecenas, assistentes sociais, médicos, enfermeiros, etc... mesmo que tivéssemos aptidões inatas para sermos superlativos em todos esses campos: afinal o dia só tem 24 horas para todos nós! Até mesmo dentro da nossa área de “especialização” temos que saber escolher...
Temos que ter consciência que somos apenas seres humanos com um tempo de vida naturalmente muito limitado e que pode acabar de repente, sem qualquer pré-aviso. Não nos podemos pois dispersar em demasiados objectivos simultaneamente porque acabaríamos por não atingir nenhum deles, por termos dispersado as nossas energias. Quem tudo quer tudo perde...
Assim, o problema não se põe tanto em termos de potencialidades inatas, que todos temos, mas sim em termos de escolhas, que nem todos sabemos fazer: “não são os nossos talentos que mostram aquilo que realmente somos, mas sim as nossas escolhas” (frase extraída do filme “Harry Potter e a câmara dos segredos”... e uma das frases mais sábias que jamais ouvi). No entanto, eu faria também uma pequena variante a esta frase: “não são os nossos talentos que nos transformam naquilo que viremos a ser, mas sim as nossas acções”.
O que realmente torna cada ser humano diferente do seu semelhante é o conjunto de todas as escolhas pessoais que cada um de nós tomou ao longo da sua breve vida: ou seja, o que realmente conta são as nossas acções (para mim os pensamentos, quando persistentes, têm também força de acção, para o bem e para o mal).
Podemos “moldar” a nossa maneira de ser e aprender as leis da vida para tentarmos obter uma percentagem mais alta de escolhas correctas mas estaremos sempre dependentes do acaso... da sorte ou do azar... do último instante para apanhar o último voo, sem sabermos que tanto o instante como o voo eram os últimos...
Nunca poderemos prescindir do “sexto sentido”, ou seja, algo que o nosso inconsciente já entendeu a partir de indícios que o nosso consciente ainda não entendeu.
Se o “sexto sentido descobriu” em nós a tal capacidade inata especial, não uma qualquer aptidão mas precisamente aquela que sabemos que iria mudar o curso da nossa vida, a “ferramenta” que permitiria realizar o nosso ideal de vida (não confundir com os falsos sonhos que nos “enfiaram a martelo” na cabeça e que nada têm a ver com a nossa verdadeira essência) não podemos realmente deixar que a preguiça nos impeça de fazer o necessário para seguir esse caminho...
Uma vez ouvi alguém dizer, a propósito de uma criação artística, que não se tratava de “inspiração” mas sim de “transpiração”...
Muitos artistas (o mesmo é válido para tudo o que implica criação) pensam que conseguiram criar qualquer coisa de novo num “acesso repentino” de inspiração. Não se apercebem por vezes do longo caminho que percorreram até chegar a esse ponto em que são capazes de fazer algo complicado para os outros, quase sem pensar.
A nossa inteligência e capacidades inatas contam muito, mas a genialidade é sem dúvida o resultado de muito suor, de muita meditação, de muito estudo, de muita curiosidade, de muita prática em todos os sentidos.
Esse “suor” não pode ser “suado” de uma só vez ou em grandes quantidades “vertidas” de longe a longe: para que realmente algo de realmente importante e duradouro se consiga (e não uma bravata tão espectacular como inócua e passageira) há que se “dar o litro” quotidianamente.
Na verdade, só um pequeno esforço diário durante muito tempo é capaz de operar verdadeiras mudanças persistentes. Quanto mais difícil de se conseguir o nosso objectivo é, mais há que se ser constante no nosso pequeno esforço diário, tanto mais que os grandes esforços espectaculares não têm nesses objectivos quaisquer poderes (por vezes têm precisamente em nós o efeito contrário, fazendo-nos cair no desânimo diante da imensidão da tarefa que se nos apresenta).
É por esta razão que muitos dos métodos de auto ensino de línguas estrangeiras que conheço se baseiam em pequenas sessões diárias.
A persistência é portanto uma das mais importantes qualidades humanas pois pressupõe um grande auto domínio para resistirmos à monotonia da rotina, auto domínio esse cuja força nos advém da nossa capacidade de identificar objectivos verdadeiramente importantes para nós.
A via de “10% de inspiração e 90 % de suor”, parece-nos muito dura mas acreditem que até os 90% podem ser muito compensadores quando realizamos a nossa “missão de vida” enquanto que a inacção por preguiça no final nos cobra um preço terrível em termos de felicidade... é que quando saímos do sono o nosso tempo já poderá ter passado e não nos podemos enganar a nós mesmos.
Não nos deixemos iludir, na sua esmagadora maioria quem segue na via do desperdício fá-lo por escolha própria e não apenas pelas contingências da vida. A omissão é apenas mais uma forma de acção e portanto corresponde a uma escolha, talvez parcialmente inconsciente, mas ainda assim uma escolha: a escolha do “hoje não que amanhã é que vai ser”.
As nossas aspirações verdadeiras têm a ver com as diversas “vocações” de cada um de nós. Dado estarem em perfeita sintonia com o que realmente somos e com o que realmente precisamos, são um meio muito importante para sermos felizes pois fazem-nos sentir realizados (“preenchidos” por oposição ao “vazio” que sentem aqueles que vão atrás da satisfação pura dos seus desejos... ofuscados pelo brilho da ilusão).
Precisamos pois tentar descobrir e concretizar as nossas “aspirações”, “ideais”, “vocações” pessoais” (precisamos “querer de verdade”)... através das quais nos podemos “realizar” e ser mais felizes (objectivo da nossa vida) – pelo que são um verdadeiro “meio de realização pessoal”. Ao dedicarmo-nos ao nosso “sonho de vida” estamo-nos simultaneamente a modificar de forma profunda e duradoura. No entanto não pode haver uma verdadeira transformação pessoal sem concentração das nossas energias naquilo que realmente pretendemos modificar em nós mesmos... sendo por isso fundamental que o nosso “sonho de vida” seja pessoal e verdadeiramente relacionado com o que de mais profundo há em nós.
Atenção a um facto muito importante: se não estivermos intimamente convencidos da validade, oportunidade e pertinência de qualquer objectivo verdadeiramente difícil de alcançar, se tivermos uma dúvida que seja, não só não conseguiremos resistir à rotina como não teremos capacidade para resistir aos inúmeros e inevitáveis tropeções que teremos pelo caminho. Porém, quando temos a certeza acerca da validade do nosso objectivo, nunca perdemos o ânimo, recomeçando de cada vez com renovado vigor (perdemos batalhas mas não aceitamos perder guerras).
É por isso pensarmos muito bem antes de nos dedicarmos a um projecto pessoal muito ambicioso... talvez seja melhor irmos por pequenas partes que embarcarmos numa aventura tão grande e nos sujeitarmos a encontrar a dúvida num qualquer momento decisivo desse mesmo projecto... o que poderia levar a um falhanço, pelo menos parcial, que poderia acarretar em desequilíbrio.
O nosso “meio de realização pessoal” varia de pessoa para pessoa de acordo com a sua personalidade e aptidões. O nosso “meio de realização pessoal” varia também no decurso da vida... para não falar da possibilidade de termos mais que um “meio de realização pessoal” ao mesmo tempo...
Temos pois que levar isso em consideração quando pensamos em projectos a muito longo prazo... mais uma vez, a resposta pode passar por projectos menores (etapas) que nos vão levando na “direcção certa”.
Há realmente um tempo para tudo na vida, até para os nossos “meios de realização pessoal”. Todos nós conhecemos muitos casos de pessoas com “sonhos de vida” que já passaram do seu “prazo de validade”: aquele menino que em vez de desabrochar num adulto degenerou numa “criancinha grande” ou aquela “brasa” de há 30 anos atrás que continua a deitar “olhares fatais” aos homens mas se vê obrigada a abusar da maquilhagem e das plásticas... passando pelo grande jogador de futebol que não se soube retirar a tempo e acabou a jogar na 3ª divisão.
Não nos basta porém uma certeza inabalável quanto à validade, oportunidade (tempo certo) e necessidade do objectivo nem uma grande capacidade de aceitação dos inevitáveis “passos em falso” como algo de positivo (como uma lição que nos vai ajudar a obter o que queremos ao invés de um azar ou de um falhanço deprimente que nos incita a desistir).
Precisamos ainda de ter uma estratégia válida capaz de nos levar ao objectivo que pretendemos alcançar e, para além disso, precisamos de ser capazes de questionar essa estratégia de cada vez que os resultados não estejam a ser conseguidos e procurar novas vias.
A verdadeira persistência (que nada tem a ver com a teimosia) é pois a nossa melhor arma quando pretendemos atingir objectivos difíceis mas duradouros e depende do seguinte:
Clarividência (certeza dos nossos verdadeiros objectivos resultante de uma boa análise do mundo e de nós mesmos. Não confundir “fim” com “meios”).
Capacidade combativa (aceitar os nossos erros como importantes lições e não como fracassos, voltando portanto à “refrega” com mais força derivada das lições aprendidas).
Humildade (aceitarmos grandes desafios por partes, etapas, mais fáceis de atingir. Termos consciência que tanto o nosso tempo como as nossas capacidades são limitadas).
Método (capacidade de elaborar uma estratégia para a obtenção do nosso objectivo e capacidade de seguir esta estratégia com espírito crítico: se nada fizermos para mudar uma estratégia errada, deixaremos de crer nela e também na nossa própria capacidade de atingir o nosso objectivo).
Aqui está a chave para sermos capazes de mudar o que de mais profundo existe em nós e nos realizarmos enquanto pessoas.
Façam isso, eu vou tentar fazer o mesmo.
Carlos